Nos bastidores do sofrimento

“Vendo então Jacó que havia mantimento no Egito, disse a seus filhos: Por que estais olhando uns para os outros?
Disse mais: Eis que tenho ouvido que há mantimentos no Egito; descei para lá, e comprai-nos dali, para que vivamos e não morramos.” Gênesis 42:1-2

A escassez de mantimento havia chegado ao nível do insuportável, não havia mais alimento em nenhuma das tendas. As crianças choravam de fome, e os adultos já não tinham ânimo para levantar e trabalhar. “Porque Deus estava fazendo isso?” Era a pergunta latente nos corações daqueles que se acostumaram a confiar plenamente no Deus de Jacó. Mas agora, até mesmo Jacó padecia da mesma fome, a necessidade atingiu a todos sem nenhum pudor e nem respeito à fé. O que Deus estaria planejando? Dizimá-los? Teria sido tudo isso causa de algum pecado não perdoado?

Enquanto seus descendentes lamentavam pela fome, Jacó chama seus filhos e pede que estes vão ao Egito em busca de alimento, lhes dá dinheiro e os encaminha. E é ai que poderemos descobrir o porquê de tanto sofrimento.

Deus está consertando as coisas, e cuidando para que seu povo seja preservado em segurança por muitos e muitos anos.

Ele está consertando o relacionamento dos filhos de Jacó com seu irmão José, o qual havia sido vendido por eles como escravo por causa da inveja que estes tinham da relação do jovem com o pai. O rapaz havia se tornado um importante governante do Egito e estava prestes a rever seus irmãos e consequentemente perdoá-los. Em breve Jacó iria rever seu filho dado como morto, aquele que ele pensava jamais ver, seria abraçado novamente por ele.

Deus estava fazendo com que seu povo saísse da terra em que estava e experimentasse de uma cultura avançada naquela época, onde poderiam crescer e se multiplicar com mais facilidade, e assim atender aos propósitos os quais tinha preparado para eles.

O sofrimento tinha um fim bem maior do que aparentava ter. Não era um castigo, nem um meio para ensinar uma lição, era apenas Deus redirecionando todas as coisas para que alcançassem o fim desejado. E para que este plano pudesse ser executado com louvor, a fome veio sobre toda aquela terra indistintamente. Crianças e velhos padeciam sem um fim aparente para isso. Alguns tentaram entender o que tinham feito para ter que passar por tudo aquilo, quando na realidade apenas faziam parte de um todo. Mas assim como sofriam aparentemente sem razão, também gozariam do resultado final sem talvez entender perfeitamente como chegaram ali, este é um risco que todos nós corremos.

Muitas vezes não compreendemos nosso sofrimento porque estamos apenas nos bastidores deste. Há sempre uma cena se desenvolvendo no palco da existência que está definindo toda a história ao redor a qual nem sempre temos plena consciência.

Quando Jesus estava sendo crucificado, muitos sofreram por contemplar tal cena, pensavam como disse o profeta Isaías: “nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido” (Is 53:4), mas jamais imaginavam que ali estava retratado todo o sofrimento do mundo sem Deus e a redenção do mundo para Deus “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados”(Is 53:5)

Os que conscientemente – como o ladrão ao lado de Jesus que disse “Este não fez nada” – entendiam que aquilo era injusto, mal sabiam que o mundo sem Deus era exatamente tão injusto quanto a crucificação do Filho de Deus. E que aquele sofrimento seria o de muitos, até que o fim deste fosse encontrado na “vida em abundância” revelada em Jesus. Que não os isentaria do sofrimento, mas os faria encontrar em tudo o seu fim.

Muitas vezes somos os personagens principais do sofrimento, em outras apenas coadjuvantes. Há situações em que estamos no plano de frente da batalha, em outras entramos no combate sem mesmo entender por que. Ou até aceitamos de bom grado lutar, mesmo sem entender onde começou este embate. Mas uma coisa é certa, conscientes ou não da razão de estarmos sofrendo, chamando de justa ou injusta a situação, Deus nos mostra que sempre colheremos do fruto de todo e qualquer sofrimento, desde que a vida tenha sido devidamente compartilhada com Ele.

O sofrimento na maioria das vezes não nos dá razão imediata, mas Deus costuma usar a história para nos revelar porque este foi necessário.   

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O Deus que se esconde

Foi logo que comecei a confessar minha fé cristã que recebi a visita de um amigo de infância. Estudamos no mesmo colégio por vários anos. Ele foi um dos primeiros a admirar meus poemas adolescentes, até os usava para impressionar as meninas.
Sua visita naquela tarde tinha um propósito, me salvar daquele engodo que para ele era a religião. Como erámos bastante íntimos ele não foi muito discreto, foi direto ao assunto “Como você, uma pessoa tão inteligente, pode se deixar levar por essas fantasias bíblicas? Olhe nos meus olhos e me diga você acredita mesmo nessa conversa fiada de que Deus criou o mundo em sete dias? Nesse papo de Adão e Eva e Serpente? Me diga, você acredita nisso?”

E tudo que eu respondi foi “Sim”. Isso foi uma decepção muito grande para ele. Confesso que não argumentei nada, minha atitude era apenas de fé, naquele tempo sem nenhuma espécie de racionalização para a mesma. Eu não apenas cria, mas queria crer. A fé é muito isso, um misto daquilo que somos impelidos a crer e desejamos crer.

Meu amigo foi embora irritado, demorou anos pra que ele se recuperasse da decepção que lhe causei e voltasse a falar comigo amigavelmente.
Hoje, passados tantos anos desde aquele encontro ainda tenho fé, ela agora é um pouco mais digamos, apurada. Mas ainda assim é fé, aquela que nos faz mergulhar no oceano do desconhecido, com a segurança de quem imagina onde está e para onde vai.

Meu amigo se decepcionaria mais uma vez se me ouvisse explicar como me relaciono com esse Deus que creio hoje.
Minha relação com o Senhor dos senhores parece uma brincadeira de esconde- esconde. Sendo que na maioria das vezes, eu não sei se sou eu ou Ele que está se escondendo.

Comparo também Deus a uma criança tímida, que se recolhe se por acaso tentam expô-la demasiadamente. E essa visão de criança sempre me traz a lembrança uma visita que fiz certa vez a uma família. Fui apresentado a todos da casa, mas faltava alguém, era o garotinho, o filho caçula. Quando ouviu minha voz ao chegar se escondeu atrás do sofá. Ninguém conseguiu fazer com que saísse de lá, pedi ao casal que não se importasse, de timidez eu entendo perfeitamente. Continuamos a conversa, e em alguns momentos quando voltava minha vista para o sofá a minha frente podia ver meigos olhinhos aparecendo de relance. Depois os mesmos olhinhos se demoraram um pouco mais, já me olhando com mais segurança. E com um pouco mais de tempo pude ver o rostinho surgindo por trás do sofá, sorrindo. Sorri em retribuição, e isso foi o suficiente para ele se esconder novamente.

Ao me despedir da família, já à porta, o garotinho sai de trás do sofá, e me dá um adeus acenando com a mãozinha, tão naturalmente como se nos conhecêssemos a bastante tempo. Estendi a mão para cumprimentá-lo e ele saiu em disparada para o quarto.

Assim tem sido minha relação com o Deus que amo, Ele me mostra vez por outra seu olhar compassivo, revela-me seu sorriso, e em momentos mais intensos de comunhão sou capaz de ver o seu aceno mostrando sua gloriosa presença, porém, nunca o detenho. Como Maria Madalena ao encontrar o Senhor Ressurreto, até tento detê-lo em um abraço, mas ele me mostra que ainda não é o momento.

Essa é minha fé. Alimentada por um Deus que se esconde mas está tão presente que sempre que é necessário eu o encontro.

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(Dis)traídos pela mídia

 

Dia desses sentado em uma lanchonete voltei meus olhos para a TV que estava ligada de frente para quem ficava no balcão, o volume estava muito baixo, ao que parecia era um desses programas de auditório. Haviam umas garotas rebolando de biquíni e umas figuras meio grotescas no palco. A platéia parecia muito animada. Não sei do que se tratava o programa, não sou muito fã de TV, gosto de filmes, documentários e esportes nada além disso. Não é por intelectualismo, apenas não consigo me prender a certas atrações que querem me levar ao riso por humilhar alguém em piadas ou brincadeiras depreciativas, ou tentam me alimentar com fantasias sexuais expondo mulheres com sorrisos plásticos e corpos semi nus em danças no minimo constrangedoras ou cenas extremamente forçadas e de mau gosto em tele novelas.

 

O que me deixou impressionado com aquela atração televisiva era o quanto ela parecia ser surreal, era como se ali realmente fosse apresentado um mundo paralelo. Entendi que a ideia era de certa forma me fazer sair da realidade. Pensei, bem, essa é a função da diversão. Mas o problema é quando ela assume o papel de realidade naquilo que deveria ser apenas distração, ou seja, quando ela leva o telespectador a entender que não há vida além do que a tela apresenta.

 

Vivemos na era da distração, ao que parece, tudo tende a nos tirar a atenção da vida. Seja a TV, a Internet, ou os brinquedinhos eletrônicos que a cada dia evoluem mais e mais. Enquanto isso a vida vai passando, e todo mundo segue distraído. Ouvi o comentário de um amigo falando que os dias estavam voando, os anos estavam passando mais rápido do que antes, ao que repliquei “Não será porque eles estão passando e você não está vendo?”.

 

Bem, acredito que todos nós temos o direito de viver a vida como nos apraz, mas é uma tragédia não poder experimentar a vida em sua totalidade.

 

Fico pensando na biografia de um desses distraídos, 60 anos de vida poderá ser resumido em 10 páginas sem exagero.

 

Eu ainda acredito na vida que se traduz nas relações reais, nas descobertas, nos desafios. Penso que uma boa caminhada não se compara a horas sentado de frente pra uma tela de computador. E que conhecer outros seres humanos que não seja de maneira virtual, ou como a TV os apresenta, ainda é a coisa mais empolgante de se experimentar.

 

Creio que a experiência de ouvir uma gargalhada, ser colhido por um caloroso abraço, sentar numa roda de amigos é a vida em sua essência.

 

Também não acho que TV, internet ou outros meios de distração devem ser abandonados como um todo, mas é bom lembrar, são distrações, e ai é que está, se passarmos tanto tempo distraídos a vida se foi e não a vimos nem dela experimentamos.

 

Escrevi esse texto pra que lembremos da vida que pode ser vivida além dessa que nos tem sido oferecida.

  

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Porque escrevo II

Um grande problema que enfrento para escrever está relacionado aos momentos em que a inspiração chega. Quase sempre é inesperadamente, o que me faz passar por maus bocados na tentativa de não perder a chance de registrar algo interessante e talvez “edificante”.

Algumas vezes acordo de madrugada com uma frase maravilhosa na cabeça, de repente esta se interliga a outra e mais outra, corro para o meu caderninho de anotações e ainda sonolento escrevo para não esquecer. Pela manhã tento desenvolver o pensamento que veio na madrugada, e, pasmem, não sai mais nada além do que foi escrito antes.

Em outras ocasiões passeando com minha esposa em um shopping, praça ou coisa parecida, vejo uma cena ou alguém que me leva a refletir em algo existencial. Fico pensando demoradamente nisso, vou pra casa sento para escrever e parece que a cena na minha mente perdeu toda força que parecia ter.

Por fim as Escrituras Sagradas. Quando estou lendo, meditando ou estudando a Bíblia poucas vezes me veio inspiração imediata para meus textos. Não, o problema não são as Escrituras, eu creio que estas são inspiradas, o problema sou eu, sempre me encanto tanto com o que leio nos textos sagrados que dificilmente escrevo imediatamente depois de ler. Geralmente depois de um bom tempo pensando no que li, em um momento “inesperado”, me vem aquela ideia clara do que eu havia lido e lá vou eu dar um jeito de não perder essa luz.

Enfim, não sou o tipo de escritor que marca uma hora especifica para escrever, e também nem tudo que escrevo considero que tenha algo à acrescentar à vida das pessoas. O certo é que escrevo todo dia. Frases soltas, versos desconexos, pensamentos inúteis, lembranças e coisas que não podem ser esquecidas.

Mas sempre tem durante o dia aquele momento em que parece que as palavras estavam só esperando pra fluírem harmoniosamente. Elas deslizam pelos meus dedos e eu as vejo surgindo na tela do computador ou surgem na ponta da caneta e despejam-se nas páginas do caderno, e confesso que me espanto muitas vezes com elas. Em sua maioria são ousadas, falam de coisas que eu não saberia dizer com a boca, expressam sentimentos que eu temeria deixar às claras se estivessem me olhando. Despem publicamente minhas emoções sem me darem a chance de me cobrir posteriormente.

Certa vez o Valdir Steuernagel comentou comigo “Escrever é um sofrimento”, e eu tenho que concordar com ele. Sofremos pra registrar o que pensamos e sentimos, sofremos porque registramos e nem sempre somos compreendidos.

Não costumo reler os textos dos meus livros depois de serem aprovados pelo revisor, se o fizer vou apagar algumas coisas pra me proteger, esconder sentimentos com medo da exposição, e assim deixaria de me irmanar com outros que também estão comigo nessa jornada de desertos e manás. E para mim essa é a importância de escrever, saber que haverá sempre pessoas que dirão “Eu queria dizer isso, mas não sabia como”.

Enfim, escrevo para registrar a parte da vida que me cabe, as percepções, indagações, frustrações, assombros, alegrias, tristezas que por acaso é a parte que cabe a todos aqueles que se consideram simplesmente gente.

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O assustador Jesus

A desconstrução que Jesus trouxe para a religião nos dias em que se manifestou corporalmente aqui na terra foi aterrorizante para aqueles que já a haviam formatado segundo seus interesses.

No texto do Evangelho de Mateus 27.62-66 vemos o medo que os religiosos da época de Jesus tinham de que a ideologia dele pudesse ser ressuscitada mesmo depois de sua morte.

“E no dia seguinte, que é o dia depois da Preparação, reuniram-se os príncipes dos sacerdotes e os fariseus em casa de Pilatos,
Dizendo: Senhor, lembramo-nos de que aquele enganador, vivendo ainda, disse: Depois de três dias ressuscitarei.
Manda, pois, que o sepulcro seja guardado com segurança até ao terceiro dia, não se dê o caso que os seus discípulos vão de noite, e o furtem, e digam ao povo: Ressuscitou dentre os mortos; e assim o último erro será pior do que o primeiro.
E disse-lhes Pilatos: Tendes a guarda; ide, guardai-o como entenderdes.
E, indo eles, seguraram o sepulcro com a guarda, selando a pedra.”

A possibilidade da propagação da mensagem de Jesus mesmo após sua crucificação causava arrepios na espinha daqueles que eram sustentados por uma religião amedrontadora e manipulativa.

O medo de Deus precisava continuar, imagine as pessoas o chamando de Aba (papai) como Jesus propunha? Inadmissível. Não haveria como se fazer de mediador entre Deus e os homens se todos entendessem que Ele estava agindo livremente entre eles. As massas teriam livre acesso. E de que valeriam os sacerdotes depois disso?

Portanto, era preciso lacrar o túmulo, colocar guardas à porta. Para que a mensagem subversiva não se propagasse com o embuste de uma suposta ressurreição.

Mas quem poderia deter a vida? Aprisionar a liberdade? Conter por muito tempo a esperança? Ninguém. Pois vida, liberdade e esperança são manifestações divinas, e como tal carregam em si o poder da imortalidade.

E o Cristo ressuscitou. E a fria e imensa pedra da intolerância, rispidez, legalismo, desamor deslocou-se para o lado, dando assim passagem não apenas à mensagem, mas ao poderoso mensageiro desta.

Jesus está vivo, e segue assustando os que ousam tentar controlar a graciosa manifestação divina.

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Gritos silenciosos

Um grito pode ser uma expressão de um momento de alegria, de dor ou de vitória. Pode ser também uma arma para intimidação ou uma demonstração de desespero. Os gritos têm uma espécie de mensagem de alguém onde faltaram palavras e sobraram emoções.

Ao pé da cruz em que Jesus estava, era possível ouvir os gritos de lamento das mulheres; de desespero dos ladrões crucificados ao seu lado; e de fúria do povo. No decorrer de uma semana Jesus ouviu gritos de louvor: “Bendito o rei que vem em nome do Senhor” (Lc 19.38); De condenação: “Mas eles instavam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado” (Lc 23.23); e de escárnio: “aos outros salvou, salve-se a si mesmo se és o Cristo escolhido de Deus” (Lc23.35b).

Mas durante sua caminhada na terra nosso Salvador pôde ouvir muitos outros gritos, dos mais desesperados aos mais contidos.

Jesus possui uma sensibilidade ímpar, capaz de ouvir os gritos silenciosos da humanidade. Gritos que são desabafos “abafados”, contidos pelo desdém e insensibilidade dos que nos cercam, que mesmo sendo testemunhas da aflição do próximo, não se sentem compelidos a prestar socorro.

Jesus ouve, socorre, responde. Ele está atento à todos que o buscam de coração.

(Trecho do meu livro “Reflexões ao pé da cruz”)

 

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Um amor que não pode ser detido

As ruas de Jerusalém estavam cheias e barulhentas, havia um misto de lamentações e gritos de chacota, quem morava ali já imaginava do que se tratava, era mais um grupo de malfeitores que seria crucificado.

Tornou-se comum tal atividade para o povo, na maioria das vezes os condenados eram criminosos ou simplesmente rebeldes que ousavam desafiar o poderoso império Romano.

Ao aproximar-se dos homens que caminhavam escoltados pela guarda romana, via-se três indivíduos, mas um deles chamava bastante a atenção, seu corpo estava absurdamente maltratado, a impressão que se tinha é que este havia sido literalmente moído, em sua cabeça havia uma espécie de coroa de espinhos que, cravada ao seu crânio, fazia-lhe escorrer finas listras de sangue pelo rosto.

Agarrado ao madeiro, aquele homem caminhava a passos lentos; duas coisas pareciam inacreditáveis: o fato de ainda estar conseguindo andar e o incrível contraste entre a ira e a comoção demonstradas pela multidão em relação a Ele. Homens gritavam e acenavam furiosamente em sua direção, mulheres pranteavam sentindo compaixão de vê-lo em tal situação. Alguns permaneciam suspensos em estado de choque.

Todos estavam voltados para Ele. Isto no mínimo irritaria a qualquer um que chegasse ali desavisado do que estava acontecendo, qualquer um perguntaria: “Quem é este homem? O que Ele fez? Porque o povo o atormenta?”. A resposta seria: “Este é Jesus”. Jesus, o que realizou milagres, que tocou nos olhos dos cegos e os fez enxergar, que fez paralíticos andarem, que fez mortos voltarem à vida, que proferiu palavras que inundaram corações antes vazios, de paz e amor.

O Cordeiro de Deus segue em silêncio para cumprir sua missão, e os gritos da multidão, sejam irados ou de compaixão, alimentam seu amor e intensificam sua paixão e dor.

 

(Trecho do meu livro “Reflexões ao pé da cruz”)

 

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Além do tempo

O tempo é a prova cabal de que as coisas não são imutáveis.

Os anos passam e com eles se vão os vigores, a beleza e alguns sonhos que, contrariando o que diz o poeta, tendem sim a envelhecer e serem vencidos pelo cansaço.

Insistimos com a esperança de dias melhores até que o tempo consuma todos esses dias e não tenhamos mais nem um pelo qual esperar.

O tempo é implacável e veloz. Nunca parece que vivemos o suficiente e nem que nos foram dadas todas as oportunidades.

Mas eis que surge uma fonte de real esperança e vida, esta por sua vez não se deixa deter pelo tempo, embora tenha se submetido a ele por um determinado período.

A fonte é Jesus, aquele que é “o mesmo ontem, hoje e eternamente” (Hb 13.8).

Jesus é completo, não está à mercê do tempo para que venha a ser.

Tornar-se um com Cristo significa transcender o tempo, ir além das limitações de dias e anos. A vida de Jesus em nós nos faz caminhar na terra como ressurretos, aqueles que já venceram a morte e vivem a eternidade na terra.

Assim, na medida em que o nosso vigor vai se esvaindo, esperamos ansiosos pela verdadeira beleza que se há de revelar e pelo sonho que está as portas de se tornar realidade.

José Comblin disse que “A fé tem como resultado a alegria”. Por crermos naquele que ultrapassou os limites do tempo e espaço celebramos essa vida ilimitada que nos foi presenteada através dele.

O tempo perde sua força diante daquilo que é eterno. O eterno não pode ser contido, não é um belo dia que tem que chegar ao fim. Não é uma primavera que tem que dar espaço ao outono. A vida de Cristo em nós não conhece mais os limites impostos por aquela que se vale do tempo para agir, a implacável morte.

O tempo que a tudo devora um dia será sumariamente devorado pela eternidade. Eternidade esta que Jesus manifestou, está manifestando e que em breve a manifestará.

Confundindo as horas, os dias e os anos, constantemente Deus entra na história de alguém e faz com que o tempo de mais uma vida seja transformado.

Que experiência maravilhosa essa de poder viver no tempo que se chama hoje ao lado daquele que habita na eternidade. A letra da canção de Stênio Marcius “O Senhor do tempo” nos leva a compreender melhor isso, ela fala sobre essa nossa transição pelo tempo e a forma constante e renovada do Senhor se revelar a nós nele:

“Mestre, me veja menino
Deixa-me correr com Teus pequeninos
Mestre, de rosto amigável, de sorriso largo, de sereno olhar
Eu fui a Ti criança e me recebeste de braços abertos
Que estranha distância agora
Senhor, lembra do menino que eu fui outrora

Mestre, lembro que eu buscava
E me derramava, choro adolescente
Lembro daquele caderno onde eu anotava minhas orações
Jovem busquei a Ti, o refúgio certo para um moço aflito
Que estranha distância agora
Senhor, lembra do rapaz que eu fui outrora

Mestre, estou bem mais velho
E o amor que eu tinha, onde foi parar?
Mestre, fala a esse homem, que se emocione, vá recomeçar
Faz-me correr e assim retornar ligeiro ao primeiro amor
Deixa-me ver novamente o meu nome
Escrito nas santas mãos do Senhor do Tempo” 

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Santidade, uma boa razão pra se viver.

“E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas”. (1 João 1:5)

Santidade é uma decisão, a de viver à semelhança de Jesus, em comunhão plena com o Pai.

É uma simbiose.

O pecado não interessava a Jesus porque todo o seu prazer estava no Pai.

Até mesmo sua comida e bebida, dizia Ele, era fazer a vontade do Pai, ou seja, era o seu verdadeiro sustento (João 4.34).

Nosso desafio é encontrar esse mesmo prazer que Jesus tinha no Pai.

Porque ser santo? Porque não há como se relacionar com o um Deus Santo sem o desejo por santidade. A comunhão com Ele se estabelece por isso. Vejamos o que diz o teólogo J.I. Packer:

“Quando João diz que Deus é “luz”, não havendo nele treva alguma, a imagem está afirmando a santa pureza de Deus, o que torna impossível a comunhão entre Ele e o profano intencional, e requer a busca da santidade e retidão de vida como objetivo central do povo cristão (l Jo 1.5-2.1; 2 Co 6.14-7; Hb 12.10-17). A convocação dos crentes, regenerados e perdoados que são, a praticarem uma santidade que se equipare a própria santidade de Deus, e desta forma agradando a Ele, é constante no Novo Testamento, como certamente o foi no Velho Testamento (Dt 30.1-10; Ef 4.1-5.14; 1 Pe 1.13.22). Porque Deus é santo, o povo de Deus deve também ser santo”.

Santidade requer:

Vida de confissão e arrependimento

“Esta é a mensagem que dele ouvimos e transmitimos a vocês: Deus é luz; nele não há treva alguma.
Se afirmarmos que temos comunhão com ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade.
Se, porém, andamos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.
Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós.
Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça.
Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós”.
1 João 1:5-10

“Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1 João 2:1)

A vida não é estática, somos seres emocionais, sujeitos a variação de sentimentos. Levados por circunstâncias que tendem muitas vezes a nos entristecer, esfriar o nosso vigor, desmotivar, além da possibilidade constante e real de sermos seduzidos pelas fantasias que nos cercam e que podem nos atrair levando-nos ao pecado e para longe de Deus.

O Cristianismo é pautado por confissão e arrependimento. O próprio culto, a celebração que realizamos ao nosso Deus exige de nós em cada encontro “Confissão e arrependimento”. As leituras bíblicas estão impregnadas dessa idéia. Os cânticos – se naturalmente forem bíblicos – também serão assim. Algumas liturgias de igrejas orientais são todas pautadas em “Confissão e arrependimento”. Porque isso?

Porque Deus reconhece nossa humanidade caída e nossas fraquezas em decorrência dela. O arrependimento é um direito que nos foi outorgado por Jesus na cruz do calvário, o perdão que ecoa de lá vale para toda a vida.

Essa confissão seguida do arrependimento que a Palavra de Deus nos exige é pré requisito básico para que a santidade seja restaurada ou mantida, para que assim possamos desfrutar da comunhão com o nosso Senhor. Pois é através dessa comunhão que as promessas de vida em abundância recheada de paz, alegria e amor se confirmam em nós.

Portanto a Confissão e o arrependimento são dois imãs que nos trazem de volta para Deus depois que pecamos, e esta possibilidade nos foi dada pela graça de Deus manifestada na morte e ressurreição de Jesus que perdoou de uma vez por todas todos os nossos pecados, para que onde nos encontrarmos em estado de culpa, encontremos também a possibilidade do perdão gratuito de Deus sempre à nossa disposição nos dando assim a contínua restauração.

O que confessamos e do que nos arrependemos?

Se examinarmos com cuidado iremos perceber que, o pecado é toda atitude que se opõe a vida. Portanto, o que confessamos é a nossa indiferença diante de Deus, nos arrependemos de não tê-lo honrado com nossas vidas.

Aquele que tudo criou o fez para que pudéssemos experimentar do seu prazer naquilo que criou. Todas as vezes que nos mostramos indiferentes a essa criação – isto inclui a indiferença em relação às nossas próprias vidas e a do próximo – isto nos separa dele, a isso chamamos pecado.

Jesus veio nos reconciliar com o Pai e com a vida. A comunhão com Deus equivale à reconciliação e celebração da vida que Ele nos deu. Daí podemos entender a morte sendo vencida na cruz e a ressurreição nos mostrando o triunfo de Jesus, é esta a mesma experiência que nos cabe. Vivemos como ressuscitados, cheios de uma vida que não será detida pela morte.

A santidade portanto é uma forma de viver a vida que em Cristo é reconhecidamente abundante e transbordante de graça, amor e misericórdia.

Qualquer forma de menosprezar ou desprezar essa vida corresponde ao pecado. Foi assim quando tudo começou, Adão e Eva deram as costas para a vida que lhes foi concedida e a humanidade passou à buscar incessantemente encontrá-la.

Não compactuar com o mal

“Não se ponham em jugo desigual com descrentes. Pois o que têm em comum a justiça e a maldade? Ou que comunhão pode ter a luz com as trevas?
Que harmonia entre Cristo e Belial? Que há de comum entre o crente e o descrente?
Que acordo há entre o templo de Deus e os ídolos? Pois somos santuário do Deus vivo. Como disse Deus: “Habitarei com eles e entre eles andarei; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo”.
Portanto, “saiam do meio deles e separem-se”, diz o Senhor. “Não toquem em coisas impuras, e eu os receberei”
“e lhes serei Pai, e vocês serão meus filhos e minhas filhas”, diz o Senhor Todo-poderoso” (2 Coríntios 6:14-18)

Ao nos depararmos com este texto no principio, pensamos ser uma proposta preconceituosa e que até não condiz com a postura de Cristo enquanto esteve na terra. Visto que o Mestre se misturava aos pecadores e até comia com eles.

Mas a questão é que confundimos conviver com pessoas más e compactuarmos com os seus atos. O que o texto nos diz aqui é que quem quiser manter a sua santidade não pode de maneira alguma aceitar as ações ruins daqueles que nos cercam ou mesmo concordar com elas.

A associação com o mal representa total dissociação com Deus. Deus é luz, nele não há comunhão alguma com as trevas. O mal tende à minar a vida de quem executa e de quem sofre a maldade. O mal é o posto do bem que tende a fazer com que a vida se expanda.

Não somos atraídos pelo mal que se mostra claramente, mas pelo mal que parece bem.

Nossa sociedade tenta abolir o que é certo e errado. Isto passa a ter um julgamento pessoal. Cada um vive da maneira que mais lhe agrada mesmo que isso desagrade aos demais. Ainda é chamado de crime determinadas agressões ao próximo, mas tornou-se uma variante de caso pra caso.

Assim a associação com o mal se tornou muito sutil. A mídia colabora muito com isto, cristãos dão audiência para programas de TV que exaltam a promiscuidade fazendo assim com que suas mentes se contaminem ao mesmo tempo em que mostram aprovar tais coisas; São consumistas compulsivos deixando de muitas vezes amparar os necessitados ou colaborar com a propagação do Reino; Aliam-se a partido políticos e demonstram uma fidelidade absoluta mesmo percebendo os erros do mesmo; Jovens e adolescentes escutam musicas que denigrem a imagem de Deus, ou incitam à violência, ao uso das drogas, a sexualidade pervertida. E a tudo isso e muito mais dizem “Mas não tem nada demais”, chamam o mal de bem e vivem tranquilamente associados a ele, longe de conhecer o prazer da verdadeira comunhão com Deus.

É o mal que nos tira a vida, compactuarmos com o mesmo é puro suicídio existencial.

Sujeitos à disciplina do Senhor

O que Deus faz diante de nossa possibilidade de nos submeter ao mal, nos castiga? Não podemos chamar de castigo o que nos conserta e atrai para junto do Pai. Veja o que diz o autor do livro de Hebreus:

“E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, E não desmaies quando por ele fores repreendido;
Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho.
Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija?
Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos.
Além do que, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos?
Porque aqueles, na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade.
E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela.
Portanto, tornai a levantar as mãos cansadas, e os joelhos desconjuntados,
E fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que manqueja não se desvie inteiramente, antes seja sarado.
Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor;
Tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem” (Hebreus 12:5-15)

Um Deus que ama chama a nossa atenção para si e atraí nos para o seu amor.

O Senhor não apenas deseja nos dar a vida mais nos manter na experiência constante de estarmos vivos.

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Sexualidade sadia.

No decorrer da história sempre houve tentativas de anulação do corpo para um desenvolvimento da santidade.

A idade média desenvolveu essa idéia de que o sexo era um empecilho para a busca da comunhão com Deus. E as mutilações do corpo eram ordem pra quem quisesse se manter puro.

São conhecidas as terríveis histórias de auto flagelo por parte daqueles que queriam servir e amar a Deus em santidade. Um relato bastante interessante sobre essa prática em nossos tempos é relatada pelo escritor Brennam Manning em seu livro “O impostor que vive em mim”:

“Tenho uma história pessoal de autoflagelo. Quando tinha 23 anos, ainda

noviço da Ordem Franciscana em Washington, praticava-se uma disciplina

espiritual antiga nas noites de sexta-feira da Quaresma. O clérigo escolhido se

postava impassível ao lado da abertura da escada no primeiro andar, recitando

lentamente e em voz alta o salmo 51 em latim: Miserere me, Domine, secundum

misericordiam, tuam.

Enquanto isso, os restantes de nós entravam nas celas, no segundo andar,

agarrando firmemente um instrumento de tortura em forma de laço, medindo

trinta centímetros; era fio de telefone enrolado. Enquanto prosseguia o salmo,

açoitávamos as costas e nádegas para extinguir o fogo da sensualidade. Eu me

chicoteava com tal renúncia temerária que me surgiram bolhas de sangue nas

costas.

No dia seguinte, durante o banho, um clérigo viu meu corpo surrado e

relatou meu estado ao mestre dos noviços, que me censurou por meu zelo

destemperado. A verdade seja dita: tentava desesperadamente me tornar

agradável a Deus.

Não foi assim com o irmão Dismas, que vivia na cela adjacente à minha. Eu o

ouvi se açoitar tão selvagemente que temi por sua saúde e sanidade. Arrisqueime

a dar uma espiada através da porta rachada: com um sorriso perturbado e

um cigarro na mão esquerda, golpeava a parede com grande revolta, shlep,

shlep, shlep. Minha reação? Tive pena do pobre desgraçado e voltei para minha

cela com um intolerável sentimento de superioridade espiritual.

Flagelar-se não é saudável para o corpo nem para a alma.”

Corpo e santidade devem andar juntos, um não deve anular o outro. Jesus ressuscitou com um corpo, o que nos mostra que a eternidade nos reserva essa possibilidade. (Jesus comeu depois de ressuscitado e ao mesmo tempo atravessava paredes e sumia).

A questão é que para vivermos uma sexualidade sadia é necessário encontrar o equilíbrio entre corpo e alma. Pois a alma pode adoecer o corpo, e o corpo adoecer a alma.

Recentemente um ex jogador de futebol foi preso acusado de abusar de uma garotinha de 5 anos. Na cadeia ele confessou que durante a infância havia sido várias vezes abusado, o que terminou por deformar sua vida sexual.

A vida sexual é como qualquer outra coisa que aprendemos aqui neste mundo. Se aprendermos que comer frango, carne ou peixe é natural, mas que comer tarântula, cachorro ou macaco é horrível, nunca compreenderemos como isso é possível em outras culturas.

Da mesma forma, se não aprendermos a lidar com o sexo de maneira sadia e natural, nunca compreenderemos o fim pelo qual ele foi criado, e assim corremos o risco de uma deformação que poderá nos arruinar a alma.

Quando Deus criou o sexo Ele o fez com o intuito de que este fosse uma celebração do amor e da vida, o sexo é a forma que Ele estabeleceu para que procriássemos e consumássemos nossa relação de entrega e intimidade com a pessoa que escolhemos dividir a vida conjugal.

O sexo no plano de Deus é uma experiência de corpo e alma “O homem se unirá a sua mulher e ambos se tornarão uma só carne” (Gn 2.24). Uma mutualidade seria desenvolvida a partir disso, duas pessoas se conhecendo como um todo.

Nossa geração o transformou numa experiência absolutamente sensorial.

Segundo a psicóloga Maria Simone de Araújo Santos: “O individuo é um ser construído historicamente, “nas e pelas” relações. As funções que são ligadas à própria sobrevivência, como se alimentar, dormir, relacionar-se, são sempre mediadas pela sociedade na qual os sujeitos estão inseridos. Neste sentido se considera a sexualidade como um dos aspectos fundamentais da “humanização do homem”, não podendo ser reduzida a questões de ordem meramente biológicas” *

Quais as implicações de tal comportamento?

- Perdemos os sentimentos visto que transformamos as pessoas em coisas. (Pessoas sem sentimentos deixam de ter o prazer de se relacionar por amor, em contrapartida não sabem amar nem receber amor);

- Somos escravizados pelas sensações, que podem assim agir como uma droga nos levando a uma total dependência. (Nenhuma escravidão é legal);

O corpo leva uma vantagem sobre a mente, ele é capaz de sentir a sensação antes que se possa racionalizar a situação. Paulo disse que “esmurrava seu corpo” (I Co 9.27) e que “Aquilo que queria fazer não conseguia” (Rm 7.15).Quem se deixa controlar mais pelo corpo que pela mente com certeza sofrerá a angustia do descontrole diante do prazer sexual( é assim que se desenvolvem as taras e ninfomanias).

Há também uma sensação de deslocamento emocional no ato sexual realizado por simples resposta ao desejo. Todos querem ser amados e o sexo praticado sem o compromisso emocional, deixa sempre o vazio e a solidão de que algo está faltando. Esta falta nada mais é do que a experiência extra sensorial que somente o sentimento aliado ao prazer podem dar. Sexo sadio é uma união plena de corpo e alma e isto se dá pela química do amor. Este amor traz a segurança do pertencer um ao outro, sem o medo de se tornar objeto, mas sentindo-se parte de uma união maior que o simples ato sexual descompromissado não pode proporcionar.

Ninguém vai se policiar na vida sexual se não tiver desenvolvido uma relação de intimidade com Deus. Se não tivemos a alma saciada em Deus, buscaremos nos saciar pelo que o corpo nos permitir.

Se o nosso prazer inicial não é Deus, chamaremos qualquer coisa que nos dê prazer de Deus.

Somos seres necessitados de alegria, amor, prazer e quando não sabemos onde buscar isso além do corpo dependeremos absolutamente dele.

É por isso que o sexo em nossos dias tornou-se objeto de adoração e descarga emocional. Estamos em uma geração que corre o sério risco de se tornar cada vez mais infeliz por inferiorizar as coisas que foram criadas para nosso deleite. O sexo é uma dessas coisas que tem sido rebaixadas a tal ponto em que nos tem feito como animais em constante cio, destituídos de sentimentos e com a alma completamente vazia.

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